sábado, 30 de abril de 2016

UM POUQUINHO DE UM PAIS CHAMADO BRASIL FORA GOLPISTAS


Rede Globo pede direito de
William Bonner, editor-chefe do Jornal Nacional, telejornal de maior audiência
 do Brasil. Seu patrão, João Roberto Marinho, está incomodado com a
 repercussão internacional do impeachment

Depois de ser citada em texto do The Guardian

 que trata do que está por trás do impeachment

 de Dilma Rousseff no Brasil, a Rede Globo

 exigiu um direito de resposta, mas recebeu

 o desprezo do jornal britânico

A publicação de um artigo de David Miranda no
 jornal britânico The Guardian provocou (leia o
texto abaixo) forte reação das Organizações Globo.

Por meio de seu vice-presidente, João Roberto
 Marinho, o grupo Globo insistiu para que o
 jornal publicasse uma resposta ao texto, dizendo 
que jamais houve apoio ao processo de
 impeachment contra a presidente Dilma Rousseff.

O The Guardian tratou a Globo de uma maneira
 que a emissora não está acostumada no Brasil:
 com desprezo.

Na ânsia de produzir uma contra-narrativa ao
 texto do The Guardian, o poderoso executivo 
da Globo enviou sua opinião, numa tentativa 
de rebater os elementos apontados no jornal 
britânico. O texto de Marinho, no entanto,
 foi relegado à singela caixa de comentários do
 jornal e não foi publicado.

Em seu texto “A razão real que os inimigos de
 Dilma Rousseff querem seu impeachment”,
 Miranda apresenta ao mundo os interesses
 que estão por trás do golpe em curso no Brasil
. Entre eles, o da mídia, setor extremamente
 concentrado no país.

Desde o início do processo de impeachment de
manifestaram preocupação com a condução do
 caso por Eduardo Cunha (PMDB).

Ps.: No jornal O Globo, dois textos desmentem
 a tese de Marinho de que a Globo não apoia
 o impeachment. São os editoriais intitulados
 “O impeachment é uma saída institucional da
 crise” e “Tempo no impeachment corre contra
 o país”. A cobertura enviesada do Jornal 
Nacional, comandado por William Bonner,
 também é um elemento que merece destaque.

Abaixo, leia a íntegra do texto que enfureceu a 
 querem seu impeachment”

A história da crise política no Brasil, e a mudança
 rápida da perspectiva global em torno dela,
 começa pela sua mídia nacional. A imprensa e as 
emissoras de TV dominantes no país estão nas
 mãos de um pequeno grupo de famílias, entre as
 mais ricas do Brasil, e são claramente
 conservadoras. Por décadas, esses meios de
 comunicação têm sido usados em favor dos 
ricos brasileiros, assegurando que a grande
 desigualdade social (e a irregularidade
 política que a causa) permanecesse a mesma.

Aliás, a maioria dos grandes grupos de mídia 
atuais – que aparentam ser respeitáveis para quem
 é de fora – apoiaram o golpe militar de 1964
 que trouxe duas décadas de uma ditadura de
 direita e enriqueceu ainda mais as oligarquias do
 país. Esse evento histórico chave ainda joga
 uma sombra sobre a identidade e política do 
país. Essas corporações – lideradas pelos
 múltiplos braços midiáticos das Organizações 
Globo – anunciaram o golpe como um ataque
 nobre à corrupção de um governo progressista
 democraticamente eleito. Soa familiar?

Por um ano, esses mesmos grupos midiáticos
 têm vendido uma narrativa atraente: uma 
população insatisfeita, impulsionada pela fúria 
contra um governo corrupto, se organiza e
 demanda a derrubada da primeira presidente
 mulher do Brasil, Dilma Rousseff, e do Partido 
dos Trabalhadores (PT). O mundo viu inúmeras
 imagens de grandes multidões protestando
 nas ruas, uma visão sempre inspiradora.

Mas o que muitos fora do Brasil não viram foi
 que a mídia plutocrática do país gastou meses 
incitando esses protestos (enquanto pretendia 
apenas “cobri-los”). Os manifestantes não
 representavam nem de longe a população do 
Brasil. Ao contrário, eles eram desproporcionalmente
 brancos e ricos: as mesmas pessoas que se
 opuseram ao PT e seus programas de combate
 à pobreza por duas décadas.

Aos poucos, o resto do mundo começou a ver
 além da caricatura simples e bidimensional criada 
pela imprensa local, e a reconhecer quem obterá
 o poder uma vez que Rousseff seja derrubada. 
Agora tornou-se claro que a corrupção não é
 a razão de todo o esforço para retirar do cargo
 a presidente reeleita do Brasil; na verdade, a
 corrupção é apenas o pretexto.

O partido de Dilma, de centro-esquerda, 
conseguiu a presidência pela primeira vez em
 2002, quando seu antecessor, Lula da Silva, 
obteve uma vitória espetacular. Graças a sua 
popularidade e carisma, e reforçada pela grande 
expansão econômica do Brasil durante seu
 mandato na presidência, o PT ganhou quatro 
eleições presidenciais seguidas – incluindo a
 vitória de Dilma em 2010 e, apenas 18 meses
 atrás, sua reeleição com 54 milhões de votos.

A elite do país e seus grupos midiáticos
 fracassaram, várias vezes, em seus esforços 
para derrotar o partido nas urnas. Mas plutocratas
 não são conhecidos por aceitarem a derrota de
 forma gentil, ou por jogarem de acordo com 
as regras. O que foram incapazes de conseguir
 democraticamente, eles agora estão tentando
 alcançar de maneira antidemocrática: agrupando
 uma mistura bizarra de políticos – evangélicos 
extremistas, apoiadores da extrema direita que
 defendem a volta do regime militar, figuras dos
 bastidores sem ideologia alguma –
 para simplesmente derrubarem ela do cargo.

Inclusive, aqueles liderando a campanha pelo 
impeachment dela e os que estão na linha
 sucessória do poder – principalmente o
 inelegível Presidente da Câmara Eduardo 
Cunha – estão bem mais envolvidos em
 escândalos de corrupção do que ela. Cunha
 foi pego ano passado com milhões de dólares
 de subornos em contas secretas na Suíça, logo
 depois de ter mentido ao negar no Congresso
 que tivesse contas no exterior. Cunha também 
aparece no Panamá Papers, com provas de que
 agiu para esconder seus milhões ilícitos em
 paraísos fiscais para não ser detectado e 
evitar responsabilidades fiscais.

É impossível marchar de forma convincente
 atrás de um banner de “contra a corrupção”
 e “democracia” quando simultaneamente se
 trabalha para instalar no poder algumas das
 figuras políticas mais corruptas e antipáticas
 do país. Palavras não podem descrever o 
surrealismo de assistir a votação no Congresso
 do pedido de impeachment para o Senado, 
enquanto um membro evidentemente corrupto
 após o outro se endereçava a Cunha, proclamando
 com uma expressão séria que votavam pela
 remoção de Dilma por causa da raiva que 
sentiam da corrupção.

Como o The Guardian reportou: “Sim, votou 
Paulo Maluf, que está na lista vermelha da 
Interpol por conspiração. Sim, votou Nilton
 Capixaba, que é acusado de lavagem de 
dinheiro. ‘Pelo amor de Deus, sim!’ declarou 
Silas Câmara, que está sob investigação por 
forjar documentos e por desvio de dinheiro público.”

Mas esses políticos abusaram da situação. 
Nem os mais poderosos do Brasil podem
 convencer o mundo de que o impeachment de 
Dilma é sobre combater a corrupção – seu
 esquema iria dar mais poder a políticos cujos 
escândalos próprios destruiriam qualquer
 carreira em uma democracia saudável.

Um artigo do New York Times da semana
 passada reportou que “60% dos 594 membros
 do Congresso brasileiro” – aqueles votando
 para a cassação de Dilma- “enfrentam sérias
 acusações como suborno, fraude eleitoral, 
desmatamento ilegal, sequestro e homicídio”. 
Por contraste, disse o artigo, Rousseff “é uma 
espécie rara entre as principais figuras políticas
 do Brasil: Ela não foi acusada de roubar para si mesma”.

O chocante espetáculo da Câmara dos Deputados 
televisionado domingo passado recebeu atenção
 mundial devido a algumas repulsivas
 (e reveladoras) afirmações dos defensores do
 impeachment. Um deles, o proeminente
 congressista de direita Jair Bolsonaro – que 
muitos esperam que concorra à presidência e em
 pesquisas recentes é o candidato líder entre os 
brasileiros mais ricos – disse que estava votando 
em homenagem a um coronel que violou os direitos
 humanos durante a ditadura militar e que foi
 um dos torturadores responsáveis por Dilma.
 Seu filho, Eduardo, orgulhosamente dedicou
 o voto aos “militares de 64” – aqueles que
 lideraram o golpe.

Até agora, os brasileiros têm direcionando sua
 atenção exclusivamente para Rousseff, que está 
profundamente impopular devido à grave recessão
 atual do país. Ninguém sabe como os brasileiros,
 especialmente as classes mais pobres e 
trabalhadoras, irão reagir quando virem seu
 novo chefe de estado recém-instalado: um 
vice-presidente pró-negócios, sem identidade
e manchado de corrupção que, segundo as
 pesquisas mostram, a maioria dos brasileiros
 também querem que seja cassado.

O mais instável de tudo é que muitos – incluindo
 os promotores e investigadores que tem 
promovido a varredura da corrupção – temem
 que o real plano por trás do impeachment de 
Rousseff é botar um fim nas investigações em 
andamento, assim protegendo a corrupção,
 invés de puni-la. Há um risco real de que uma
 vez que ela seja cassada, a mídia brasileira não
 irá mais se focar na corrupção, o interesse
 público irá se desmanchar, e as novas facções
 de Brasília no poder estarão hábeis para 
explorar o apoio da maioria do Congresso 
para paralisar as investigações e se protegerem.

Por fim, as elites políticas e a mídia do Brasil 
têm brincado com os mecanismos da democracia.
 Isso é um jogo imprevisível e perigoso para se 
jogar em qualquer lugar, porém mais ainda 
em uma democracia tão jovem com uma história
 recente de instabilidade política e tirania, e 
onde milhões estão furiosos com a crise econômica
 que enfrentam.

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