NASSIF:
GLOBO
VIROU
INIMIGA
NÚMERO
1 DE
QUALQUER
PROJETO PROGRESSISTA
"A Globo conseguiu seu maior feito politico
ao ser a protagonista principal de um golpe
de Estado. Criou uma conta enorme a ser
saldada em um ponto qualquer do futuro.
Desde então, se transformou no inimigo
número um de qualquer governo
progressista que surja nas próximas
décadas", diz o jornalista Luis Nassif;
"Nenhuma democracia é compatível
um mercado dominado por grandes
grupos de mídia atuando de forma
cartelizada e com poder de fogo similar
ao das Organizações Globo"
6 DE OUTUBRO DE 2016 ÀS 05:15 //
As eleições municipais simbolizam um marco zero
para as esquerdas, de fim da era de predominio
absoluto do PT. Por Luis Nassif, no jornal GGN
O partido nasceu moderno nos anos 80, como
uma confluência de coletivos.
Nos anos 90 amoldou-se para a luta política
convencional, revendo dogmas, aplainando
radicalismos estéreis. Mas, para tanto, recorreu
a um centralismo que pouco a pouco foi inibindo
o protagonismo dos coletivos.
Com a chegada ao poder, tentou manobrar as
ferramentas de luta institucional. Nesse período,
perdeu quatro elementos centrais: José Genoíno
e Luiz Gushiken, tragados pela AP 470; o ex-
Ministro Márcio Thomaz Bastos; manteve ainda
José Dirceu atuando como eminência parda, mas
sem dispor mais das ferramentas institucionais
e afastado do centro de poder pelo isolamento a
que foi confinado pelo governo Dilma, crítica de
seus métodos.
Finalmente, no governo Dilma Rousseff perdeu a
identidade ideológica.
Assim, ocorreu uma quádrupla derrota nos campos
político, institucional, midiático e ideológico. A
esquerda terá que ser refundada.
As características dos novos tempos são as seguintes.
Peça 1 - fim do lulismo
A legenda Lula compreendia um conjunto de símbolos
pouco captados pelas novas gerações: a criação da CUT,
os comícios da Vila Euclides, a campanha de Collor,
a campanha do impeachment.
Manteve-se como o grande aglutinador dos grupos de
esquerda e como o maior símbolo da política brasileira
do século. Mas tombou, vítima da falta de lembrança
das novas gerações, da campanha sistemática de
destruição pela aliança da Procuradoria Geral da
República (PGR), Lava Jato e mídia. E pelos erros
tremendos de não ter entendido os aspectos
institucionais e midiáticos da guerra política.
Na verdade, o único líder do PT com essa visão era
José Dirceu. Explicitou demais o seu poder, atuou com
excessiva desenvoltura em todas as áreas, do
Judiciário aos grandes grupos e terminou fuzilado
por uma armação: a tal "teoria do fato",
magistralmente definida pela Ministra Rosa Weber
com seu célebre "não tenho provas, mas a doutrina
me permite condená-lo".
Depois, foi alvo de todas as armações acusatórias
possíveis e de uma bala de prata real: suas relações
com Milton Pascowitch.
O sonho de Lula 2018 está comprometido pelos
resultados da campanha política de desconstrução
de sua imagem e pela continuidade do jogo político
escandaloso da Lava Jato, visando inabilitá-lo juridicamente.
Continuará sendo figura referencial das esquerdas, a
liderança capaz de aglutinar os diversos setores. Mas
os cenários possíveis para a esquerda têm que começar
a trabalhar com a hipótese concreta de não contar
com Lula em 2018.
Peça 2 - a mediocridade da direita
Nos anos 80, ganhou popularidade uma velha piada sobre
o inferno.
O sujeito morre, vai para o inferno e precisa escolher
entre três, o inferno norte-americano, o alemão ou o
brasileiro. O brasileiro, além de incorporar todas
as funcionalidades dos dois anteriores, ainda tem
um cardápio adicional de tortura, dentre as
quais meia hora diária ouvindo o José Serra
falando sobre o perigo bolivariano no mundo.
O condenado se espantou:
- Se o brasileiro é tão pior assim, porque está cheio e os dois
- outros vazios?
- É porque no brasileiro nada funciona. O Secretário de
- Governo desviou o carvão da fornalha, o demônio da Casa
- Civil montou uma concorrência fraudada e a cadeira do
- Dragão dá curto circuito, o Satanás só herdou as mesóclises
- de Jânio. E o Serra nunca aparece porque dorme até
- tarde e passa o resto do dia tentando decorar siglas:
- Brics, NSA, Mercosul, União Europeia… Brics, NSA,
- Mercosul, União Europeia… Bracs, perdão, Brics, GSA,
- perdão NSA...
Piadas à parte, a direita brasileira não se mostra
capaz de desenhar um projeto minimamente
articulado de país. Nos anos 90, embarcou na onda
Reagan-Thatcher, que começava a dominar o
mundo pós-muro de Berlim. Agora, nada tem,
nem utopias globais às quais recorrer. Atualmente
único fator de aglutinação é atacar a velha
esquerda e exalar toda forma de preconceito. E
importar das ondas globais a intolerância mais retrógrada.
Terá vida curta. Sua única saída será ampliar o Estado
de Exceção. Mas mesmo para isso teria que dispor
de características morais e de capacidade de
desenhar o futuro. Só com mesóclises será insuficiente..
Portanto o novo tempo do jogo está próximo, de
menos de uma década, com novos atores que
ainda estão em formação.
Peça 3 - a ampliação do estado de exceção
Antes de ingressar no novo tempo político, há
o enorme desafio de enfrentar a maré do Estado
de Exceção.
Quando comecei a apontar a participação do PGR
Rodrigo Janot no golpe, procuradores bem
intencionados preferiram se iludir com a presunção
de isenção. Nas suas entranhas, o processo jurídico
é burocratizado e lento. E as regras de accoutibility
suficientemente vagas para que os operadores do
direito manobrem com prazos, com avaliações
subjetivas sobre os inquéritos e, principalmente,
com o uso seletivo dos vazamentos.
O inquérito contra Aécio Neves dormiu por anos
na gaveta do PGR. O julgamento do “mensalão
tucano” foi atrasado por anos graças a um mero
"esquecimento" do Ministro Ayres Brito.
Até hoje é impossível saber quais e quantos
inquéritos repousam nas gavetas da PGR ou
em pedidos de vista intermináveis do STF.
Agora, o MPF e a Polícia Federal se constituem
na maior ameaça à democracia. E há razões de
sobra para temer.
Qualquer avaliação sobre o avanço do Estado de
Exceção tem que analisar dinamicamente o que
ocorre, levando em conta todos esses sinais.
O que Mirian Leitão fez foi uma mistificação
histórica, ao comparar o quadro politico atual
com a ditadura pós-AI5, em plena maré de
torturas, para concluir que hoje em dia não
existe regime de exceção.
Para chegar a 1968, a ditadura passou por 1964,
período no qual foram plantadas as sementes da
radicalização posterior - principalmente quando
o regime entendeu que não tinha possibilidades
eleitorais. E surgiu porque avançou-se dia a dia
em medidas de exceção, criminalizando os
críticos, fossem comunistas ou liberais. E, na
mídia, as Miriam Leitão da época estimulavam
a caça às bruxas recorrendo a um legalismo de araque.
Se Mirian e outros colegas forem bem sucedidos
em seu trabalho diário de fomentar a caça às
bruxas, é possível que dentro de pouco tempo
possamos chegar ao padrão AI5.
O direito penal do inimigo está proliferando por
todos os poros da república, dos colunistas de
jornais a procuradores da República, diretores de
escola expurgando “comunistas” e redações
expurgando quem ousar criticar o golpe.
É um sentimento disseminado.
É possível que em um ponto qualquer do futuro
erga-se alguma onda de resistência contra o
arbítrio. No momento, não.
No CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público)
as piores asneiras de direita são perdoadas. Hoje
em dia, no entanto, as ameaças do CNMP pairam
sobre o pescoço do procurador que questionou
a reforma trabalhista em artigo, os bravos
procuradores da República em São Paulo que
correram até a delegacia para defender jovens
vítimas de arbitrariedades policiais; a Procuradora
Federal dos Direitos do Cidadão, Deborah Duprat,
por ter decidido filmar as passeatas para coibir as
truculências da Polícia Militar paulista.
Em quadro de normalidade democrática, de
discernimento mínimo jurídico, nem o mais obtuso
procurador da República proibiria exposição de
obras de Paulo Freire na UFRJ (Universidade
Federal do Rio de Janeiro) ou cartazes de “fora
Temer” em colégios - como fez ontem o procurador
da República no Rio de Janeiro, Fábio Moraes de Aragão.
Por tudo isso, o primeiro grande desafio será conter
essa escalada da violência, do dedurismo, que
entrou por todos os poros da sociedade.
Peça 4 - a reconstrução de um modelo de esquerda
Essa reconstrução passa não apenas pela
recuperação dos valores centrais - inclusão social,
políticas sociais, estado do bem estar social,
tolerância, defesa das minorias, defesa do
meio ambiente etc. -, mas por rediscussão
sobre modelos de estado, instituições e mídia.
Sobre instituições
A maneira das corporações entrarem no jogo
político foi atrás do associativismo. Criado como
uma instância de supervisão do Judiciário, por
exemplo, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça)
só levanta dados para justificar gastos do
Judiciário. O CNMP (Conselho Nacional do
Ministério Público) é incapaz de ações mais
severas contra abusos de procuradores. Hoje
em dia, o Judiciário já consome 1,8% do PIB
e caminha para 2,1%, fato inédito em qualquer
economia global.
Pior, há um desconhecimento amplo dessas
corporações em relação a temas políticos e
econômicos, mais ainda em relação a projetos de país.
Nenhum governo será viável se não tiver o controle
dessa agenda e se não instituir umaaccountibility
ampla nesses setores. Hoje em dia não se tem
acompanhamento nem sobre processos em
tramitação no Supremo, nem na Câmara, não
se tem controle sobre a gaveta do PGR.
Terá que se recuperar os princípios originais de
independência do Ministério Público e do
Judiciário: para assegurar a independência de
julgamento do juiz e o trabalho independente
do procurador. e não como ferramenta de
instrumentalização política de um poder de Estado.
Sobre gestão
Os governos Lula e Dilma revelaram grandes
exemplos de boa gestão, especialmente nos
programas desenvolvidos por Fernando Haddad
no MEC (Ministério da Educação), no Bolsa
Família e no Brasil para Todos. E alguns arremedos
de gestão compartilhada no PAC (Programa de
Aceleração do Crescimento).
Mesmo assim, não trataram de definir um padrão,
a partir do acúmulo de experiências bem sucedidas.
Mas, apesar dos avanços, ainda se deixou muito a desejar.
- A institucionalização de políticas públicas passa por definir
- métodos claros de parceria com estados, municípios e
- terceiro setor. Só se consegue com a criação de protocolos
- de procedimentos para cada programa, facilmente
- assimiláveis na ponta, fiscalizáveis e reprodutíveis.
- Desenvolvimento de modelos de comunicação, para
- facilitar a compreensão da opinião pública sobre os
- benefícios dos projetos.
- Institucionalização de canais de participação da sociedade
- nas diversas instâncias de discussão das políticas públicas.
Sobre mídia
Nenhuma democracia é compatível um mercado
dominado por grandes grupos de mídia atuando
de forma cartelizada e com poder de fogo similar
ao das Organizações Globo.
Em todos os fóruns de direitos humanos, o direito
à informação ganhou status de direito fundamental,
tão relevante quanto o direito à vida, à alimentação
e à saúde.
A Globo conseguiu seu maior feito politico ao ser a
protagonista principal de um golpe de Estado. Criou
uma conta enorme a ser saldada em um ponto
qualquer do futuro. Desde então, se transformou
no inimigo número um de qualquer governo
progressista que surja nas próximas décadas.
