segunda-feira, 3 de julho de 2017

UM POUCO DO PAIS DO GOLPE CHAMADO BRASIL

Justiça estrangeira assalta

 a soberania nacional

É a elite do Mundinho Falcao, de Gabriela...

Conversa Afiada reproduz artigo de Francisco Carlos Teixeira (*)
 publicado pelo Tijolaço:
Muitos brasileiros tinham esperança, ou ao menos 
expectativas, na atuação da Justiça. Mesmo sabendo 
que os tribunais brasileiros são lentos, formais e que se
 expressam num leguleio que poucos entendem – mesmo
 assim! – esses brasileiros tinham esperanças. Não
 podíamos crer, materializar, o dito antigo de que a Justiça
 no Brasil é feita – e com dureza! – apenas para ladrão de
 galinhas. “Para os amigos tudo, para os inimigos a Lei!”.
Muito menos podíamos imaginar que seria através de
 tribunais brasileiros que interesses estrangeiros 
declarariam guerra ao Brasil.
Uma guerra de novo tipo: uma guerra sem guerra, ou seja, 
uma guerra que usa meios não-bélicos para destruir, 
solapar, aniquilar a capacidade do adversário. Assim,
 utilizando-se de modernos meios tecnológicos – mídias 
digitais, propaganda massiva, formação de quadros de elite 
em universidades estrangerias, sistemas de estágios e
 bolsas de estudos em centros de treinamentos, etc… 
arma-se uma elite para atuar a serviço, consciente ou 
inconscientemente, desse poder estrangeiro.
O Brasil não seria o primeiro alvo. Na verdade 
Ucrânia, Líbia, Egito, Tunísia, Síria, Geórgia e 
Turquia foram alvos anteriores desse modelo novo de 
guerra – uma guerra que não precisava recorrer aos 
custosos meios tradicionais de luta com canhões,
 bombardeios e destruição de cidades. Podia-se fazer a 
guerra a bem dizer… sem guerra. Por outros meios. Não era 
exatamente uma “guerra híbrida” ainda. A guerra híbrida
 misturaria meios novos e meios tradicionais. Por 
enquanto, nas chamadas “primaveras”, a guerra seria
“sem guerra”.
Para funcionar a “guerra sem guerra”, precisa-se conhecer 
bem o ponto fraco do inimigo. No caso brasileiro foi fácil: 
homens do talho de Victor Nunes Leal e Raymundo Faoro já
 apontavam para a chaga aberta do país – o caráter
 patrimonial do Estado brasileiro. O patrimonialismo, no
 perfeito conceito de Max Weber, permitiu que uma 
elite parasitária colonizasse o Estado e cooptasse tudo
 e todos que se apresentem como “o novo”, “o 
transformador”, “o renovador”. Trata-se do velho 
“transformismo” das elites, e de seu poder de cooptação,
 tão bem descrito por Jorge Amado em seu personagem 
“Doutor Mundinho”, de “Gabriela, Cravo e cCanela”.
Cabia,assim, utilizar-se dos males propiciados pela elite 
corrompida do país como brecha para iniciar o ataque à
 soberania nacional. O interessante é que tal ataque a nossa
 soberania seria feita pela parcela, aparentemente, não
 corrompida dessa mesma elite. Estrangeirada, imbuída do
 élan “renovador”, tal elite embora inteiramente colonizada,
 vestida, como no dizer de Frantz Fanon, com a máscara do
 colonizador para impor ao seu próprio povo um
 modelo importado e alienado. A elite “renovadora”, 
capacitada em centros estrangeiros,em nome de uma pureza 
que só o “outro perfeito”, “o estrangeiro”, “o espelho” em
 que devemos nos mirar e, assim, deixar de ser o que somos
 para ser a cópia mascarada do “Outro” colonizador, 
renega sua própria gente, sua história e suas tradições.
Com tudo isso destrói as bases da própria soberania nacional.
A Operação Lava-Jato abriu, sim, para muitos, a esperança 
de que as coisas mudariam: o patrimonialismo de mais de
 quatro séculos seria arrancado pelas raízes e o país seria 
“passado a limpo” – mas, infelizmente, só miravam no espelho
 do Outro, do estrangeiro. Depois de seus cursos e estágios
 no exterior se sentiam prontos para a hercúlea tarefa de 
“limpar” o Estado brasileiro, tomando-a como “missão”.
 De qualquer ponto que puxassem o fio viria o novelo
 de pecados da história-pátria: propinas, sinecuras, 
prebendas, filhotismo, estelionato, favoritismo, peculato, 
e tanto mais… Contra uma “história feia”, a nossa, a da
 própria pátria, considerada viciosa, antepunham a 
história virtuosa d´“Outro”, sem saber que a história desse
 “Outro” é uma pura construção mítica, ideológica,
 benzida na pia da religião.
Incultos na sua erudição, tomaram o mito d´Outro como história.
Iniciaram-se, então, os procedimentos jurídicos, o flanco
 da “guerra sem guerra”, a primavera do Brasil: afinal 
poderosos iriam para prisão. E realmente foram. Foram
 mesmo? Bem, Eduardo Cunha – uma unanimidade nacional,
 uma espécie de “meu malvado predileto” da Nação
 – mas, só depois que cumpriu seu papel, o de defenestrar 
Dilma Rousseff do seu cargo via acusações que seriam nos
 meses seguintes “fichinha”, “crime” de freira de colégio
 interno, face ao chorume a vazar do Congresso Nacional 
nos meses seguintes ao seu impeachment.
Bom, prendeu-se Cunha com seu aspecto melífluo, sua voz 
dissimulada, suas mãos felinas e seu cabelo oleoso e com
 aparência de caspa severa – está lá! Condenado a 15 anos
 de prisão! No entanto, sua esposa – uma jornalista de grande
 experiência foi considerada inocente, pois não sabia de onde
 caía o dinheiro no seu generoso cartão de crédito… Há 
quem mais? Ah, não… Esse está livre; este outro… Fez 
delação e foi solto; aquele… hum, foi liberado e…. acolá
 outrem está em prisão domiciliar.
O próprio Cunha é personagem central de tramas noturnas 
da República e continua sendo personagem central no
 “esquema” (ou será “organização”, um sinônimo talvez de 
“quadrilha”) que sustenta com propinas e malas cheias o
 presidente em exercício. Portanto, é, em verdade, um homem
 mais livre que a maioria dos 204 milhões de brasileiros 
que não escolheram seu presidente e com passes de equilibrista
 esticam seus salários até o mês seguinte!
Ah, temos sim um prisioneiro da Lava-Jato: o Almirante
 Othon Silva, condenado a 43 anos de reclusão. Um 
homem que prestou inúmeros serviços à Pátria, que enfrentou
 terríveis forças internacionais para dotar o país de uma
 tecnologia única e avançada, resistindo heroicamente às 
pressões ocultas de grandes potências. Envergonhado, após a
 prisão, tentou o suicídio. Mostra caráter! Sérgio Cabral, 
Eduardo Cunha, qual outro político escreveu sequer 
uma linha de arrependimento? Nada!
Muito pelo contrário continuam, com recursos escusos, 
conspirando contra a ordem constitucional da República.
 No entanto o tribunal entendeu que o homem que dotou
 o país de alta e exclusiva tecnologia de ponta, um saber
 estratégico para a Nação, merecia uma pena 3.7 vezes
 superior ao mago do mal que presidiu o Congresso
 Nacional, o senhor Eduardo Cunha. Decidiu-se punir um
 Almirante muito mais do que quaisquer um dos malfeitores 
que roubam não só o dinheiro, mas principalmente o bem
 maior do povo, roubam o voto dos cidadãos.
Temos, contudo, como explicar mais esse paradoxo: como 
permitir que um país com tantas riquezas como o Brasil 
pudesse se dotar de uma tecnologia nuclear autônoma?
 Tinha-se que exemplificar em alguém o castigo para 
parar, deter e nunca mais permitir a ousadia de uma
 mera colônia neo-extrativista de ser, de fato, um 
país verdadeiramente soberano.
Como se não bastasse, o mesmo tribunal, aliado a
 governos estrangeiros, condenam as empresas brasileiras
. Isso mesmo, as empresas. Não condenam apenas
 os executivos responsáveis pelos atos de corrupção,
 condenam as empresas. Ou seja, em vez de julgar “CPFs”, 
o tribunal julga “CNPJs”. Condenando as empresas com multas
 bilionárias a serem pagas a governos estrangeiros, 
conseguem gerar desemprego massivo, destruição de
 postos de trabalho, extinção de modernas tecnologias, 
subdesenvolvimento e a retirada do Brasil de 
mercados duramente conquistados. E os executivos?
 Bem, esses são “premiados” e vão para casa! Uma
 tornozeleira aqui, outra ali; uma retenção de passaporte 
de um e de outro não… e para outros nenhuma
 punição! Ou seja, as empresas, os “CNPJs”, são condenadas,
 caminham para extinção, o desemprego campeia, os
 trabalhadores sofrem e os executivos – “CEOs”, gostam
 de dizer! – vivem feliz o resto da história!
Nem as empresas que colaboraram, e mesmo colocaram em
 funcionamento o Holocausto durante o Terceiro Reich,
 foram punidas desta forma. A punição recai sobre seus
 proprietários e executivos e hoje são orgulho da nova
 Alemanha. Aqui, como se não bastasse a contaminação
 de valores intangíveis das empresas, devora-se a própria
 capacidade das empresas sobreviverem. Assim, a engenharia,
 a pesquisa geológica, a mineral, agropecuária, ferroviária,
 a engenharia de alimentos, os laboratórios das universidades,
 transportes e logística passam a ser alvo de uma operação 
profunda de desmonte.
Enquanto isso, outros produtores/fornecedores internacionais, 
concorrentes do Brasil, ocupam fatias crescentes
 de mercados tradicionalmente do país. A capacidade de
 agregação de valor despenca e cada vez mais nos
 aproximamos de uma situação de colônia neo-extrativista.
Trava-se, assim, uma “guerra sem guerra” na qual o futuro
 da soberania nacional está em jogo. E o mais triste de
 tudo é que o povo brasileiro nada sabe sobre guerras.
(*)Francisco Carlos Teixeira da Silva é professor
 titular e História Moderna e Contemporânea da UFRJ e 
do departamento de História da UCAM. Foi o fundador do
 Laboratório de Estudos Presente e da Rede Brasil de
 Estudos do Tempo Presente; Professor-Emérito
 de Estratégia Internacional da Escola de Comando e
 Estado-Maior do Exército Brasileiro
https://www.conversaafiada.com.br/brasil/justica
-estrangeira-assalta-a-soberania-nacional

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